A situação do brasileiro Pietro Graza, deportado pelos Estados Unidos para a Guiné Equatorial apesar de ter obtido proteção contra sua remoção ao Brasil, ganhou um novo e preocupante capítulo. Depois de permanecer por semanas em um hotel em Malabo, sem liberdade para deixar o local, ele ficou incomunicável após policiais armados confiscarem seu telefone, principal meio de contato com advogados e com o mundo exterior.
Graza havia conseguido, em 16 de abril de 2026, uma decisão favorável de um juiz de imigração dos Estados Unidos, que lhe concedeu proteção sob a Convenção Contra a Tortura (CAT). Segundo seu relato, ele alegou correr risco caso fosse devolvido ao Brasil por causa de ameaças e violência que afirma ter sofrido, relacionadas também à sua orientação sexual. A decisão, entretanto, não resultou em sua libertação. O brasileiro permaneceu sob custódia enquanto as autoridades norte-americanas buscavam outro país para recebê-lo.
Posteriormente, Graza foi colocado em um voo com destino à Libéria. Ele afirma que passou cerca de 36 horas algemado durante a viagem. Ao chegar ao país africano, Graza e um pequeno grupo se recusaram a desembarcar. Segundo seu relato, agentes disseram posteriormente que eles seriam levados de volta aos Estados Unidos. O destino, porém, foi outro: o avião pousou em Malabo, na Guiné Equatorial.
O brasileiro contou que, ainda algemados pelos pés e pelas mãos, os integrantes do grupo foram retirados da aeronave por agentes encapuzados e armados e levados em veículos para o Hotel Bamy, onde permaneceram sob vigilância. Graza sustenta que, apesar de autoridades não considerarem o local uma prisão, na prática os deportados não têm liberdade para sair.
A tensão aumentou no início de setembro. De acordo com o relato, dois dias antes de seu telefone ser confiscado, policiais chegaram a apontar rifles para dois homens durante uma discussão relacionada à apreensão anterior de celulares. Uma testemunha relatou que um dos agentes chegou a gritar uma ordem para atirar.
Na manhã de 8 de setembro, policiais armados entraram no quarto de Graza e exigiram seu telefone. Em sua última mensagem de voz enviada por meio de um aparelho emprestado, o brasileiro afirmou estar preocupado porque o celular continha contatos de jornalistas que haviam conversado com ele.
Depois disso, Pietro Graza não conseguiu mais ser localizado por seus contatos externos. De acordo com as informações desde o dia 09 de setembro ele não visualiza as mensagens e nem responde.
A preocupação aumentou no dia seguinte, quando outro homem mantido no hotel, Ahmed Soliman, egípcio e também representado por advogados, teria sido preso. Seu advogado afirmou não saber quais acusações teriam sido apresentadas nem onde ele estava sendo mantido. Informações repassadas aos representantes legais também indicaram que algumas das pessoas no hotel apresentavam cortes e hematomas.
Segundo Graza, sua história começou anos antes no Brasil. Ele relatou que mantinha uma pequena loja de suplementos e que policiais locais teriam exigido pagamentos relacionados a um esquema de “proteção”. Ele afirma que se recusou e passou a receber ameaças.
Graza também declarou que dois homens em uma motocicleta atiraram contra ele em frente à sua casa. Ele sobreviveu, mas perdeu um rim, teve comprometimento de movimentos do braço direito e passou um período em coma. Segundo seu relato, o ataque nunca foi investigado adequadamente.
Depois de se mudar para os Estados Unidos, sua situação migratória se complicou. Graza contou que enfrentou problemas pessoais, passou a usar drogas e foi detido com metanfetamina quando seu visto já estava vencido. Após cumprir uma curta sentença, foi entregue à custódia do ICE.
Deportações para terceiros países
O caso de Pietro Graza chama atenção para a política conhecida como “deportação para terceiros países”, utilizada quando uma pessoa não pode ser removida para seu país de origem ou quando esse país não a recebe.
Segundo dados citados no material, o Third Country Deportation Watch afirma que os Estados Unidos mantêm acordos com pelo menos 35 países e que mais de 26 mil pessoas teriam sido enviadas a terceiros países desde o início do segundo governo Trump.
No caso do brasileiro, existe ainda o temor de uma nova remoção. Graza afirmou que autoridades da Guiné Equatorial chegaram a dizer que poderiam facilitar sua partida para o Brasil — justamente o país para o qual ele recebeu proteção contra deportação nos Estados Unidos por alegar risco de tortura.
Agora, sem acesso ao telefone e sem comunicação regular com seus representantes, o paradeiro e as condições atuais de Pietro Graza tornaram-se motivo de preocupação para seus advogados. Até o período abrangido pelas informações disponíveis, ele e outros deportados permaneciam em um limbo jurídico a milhares de quilômetros dos países onde construíram suas vidas e sem vínculos com a Guiné Equatorial.





